Mia Couto "Um outro Pai Natal"

Revista África 21 ||| Ano I – Edição de Agosto

“Muitos compatriotas meus acreditam genuinamente que, neste extenso e bravio mundo, todos os brancos são ricos e estão dispensados do trabalho árduo”, escreve Mia Couto.

O homem usa vestes tradicionais de tons azuis e vermelhos e fala numa língua que não sou capaz de identificar. Peço que me traduzam, ninguém o sabe fazer. Estamos na cerimónia de abertura da Conferência Internacional de Escritores e Tradutores, realizada no mês passado em Estocolmo. Mais de mil participantes, vindos de todo o Mundo, têm os olhos postos no homem de trajes garridos que domina o espaçoso palco.

Depois de uma breve anunciação, o homem pede a dois músicos que o acompanhem numa canção melancólica. O tom arrastado, para meus ignorantes ouvidos, faz lembrar as ladainhas monórdicas dos índios americanos.

A meu lado, surge um primeiro esclarecimento quando alguém me sussurra:
– São lapões, estão a falar sami.

O homem no palco é um escritor e cantor lapão que, num discurso breve mas incisivo, lamenta o facto da sua língua apenas há meia dúzia de anos ser reconhecida na Suécia. Demorou séculos. Todos conhecem os lapões sem realmente saberem quase nada sobre eles. A figura do Pai Natal passeando por territórios de neve numa carroça puxada por renas é uma caricatura que os lapões, sem querer, exportaram para o mundo inteiro, mas foi-lhe surripiada a patente da imagem.

Jacob Zuma confessou-se «surpreendido e chocado» por, esta semana, ter visitado uma região habitada por comunidades de brancos pobres em Joanesburgo. O dirigente do ANC desconhecia que entre os brancos sul-africanos pudesse existir tanta miséria.

Muitos compatriotas meus acreditam genuinamente que, neste extenso e bravio mundo, todos os brancos são ricos e estão dispensados do trabalho árduo. A divisão de riqueza coincide com fronteiras raciais por estranho mandato divino ou por condenação biológica.

Não me esqueço de um documentário cinematográfico dado a ver, logo após a independência, a uma audiência de operários em Maputo. De repente, sem que eu entendesse a razão, a sala inteira ria-se a bandeiras despregadas. O filme mostrava camponeses do Norte de Portugal entoando canções enquanto lavravam a terra. Não havia motivo aparente para aquele estado hilariante. Depois, me explicaram: nunca aqueles operários tinham visto brancos trabalhando na agricultura. E pensavam que aquela gente os estava imitando a eles que, apesar de urbanos, ainda se mantinham ligados aos trabalhos agrícolas.

Pois eu, nessa cerimónia em Estocolmo recebi mais surpresas que Jacob Zuma e mais ainda que os espectadores de Maputo. Na verdade, eu conhecia os lapões e sabia um pouco da sua história. Mas fascinava-me a ideia que aquela língua teve, no contexto da Europa desenvolvida, que empreender a mesma luta anti-hegemónica que as línguas africanas. Decidi, pois, falar com o escritor. E aí, na realidade, me esperava a verdadeira surpresa. Ao me saber africano de origem portuguesa, o lapão me estendeu a mão e me disse:
– Somos parentes, meu irmão.

Acreditei, primeiro, que me atribuía, gentilmente, o parentesco da amizade que é, afinal, mais fundo que os laços de sangue. Mas, não. O homem me considerava próximo do ponto de vista genético. Os lapões, explicou ele, possuem 96 por cento do seu ADN originário da Península Ibérica e do Norte de África.

Regressei ao hotel pensando numa conversa que acabara de manter com os meus colegas africanos. Para nós, o assunto das línguas era simples: os europeus impuseram as suas aos outros. Mas estávamos longe de pensar que esses «outros» pudessem ser também europeus. E a ironia talvez pudesse ser ainda mais ousada: os verdadeiros originários da Europa Ocidental estavam brigando, ao lado dos africanos, pela dignificação das suas culturas e línguas.

De regresso a Moçambique me lembrei de como sempre estranhei a figura deslocada do Pai Natal, esse velho branco de barbas brancas tremendo de frio em pleno Dezembro que é o mês mais quente da minha cidadezinha tropical. Me irritavam as renas pelo facto de pouco se parecerem com os inhacosos e impalas da minha terra. Mas, agora, quem sabe eu sacuda, com a mesma simpatia, a mão do solitário e lapão das barbas quando ele se anunciar, no meu quintal, em plena época natalícia?

Nota: “Pai Natal” é como os portugueses e os africanos de língua portuguesa chamam o Papai Noel.

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