Alexandre Werneck "Como fugir do rótulo de africanos?”

Autores discutem como fugir do rótulo de africanos

Alexandre Werneck, Jornal do Brasil

RIO – A nacionalidade de um escritor costuma ser parte de seu cartão de visita. Em tempos de mundialização dos universos e das pautas culturais, pertencer a uma literatura nacional acabou por se tornar um elemento de identidade ainda mais forte. Mas para os escritores oriundos de países da África, a capa do passaporte parece, por vezes, e sobretudo no Brasil, padecer de um certo “excesso de síntese”:
angolano, moçambicano, guineano, o adjetivo que acaba ao lado do autor é mesmo “africano”. É como se a África fosse um país.

A Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Fliporto) – que ocorre no balneário pernambucano de 6 a 9 de novembro – celebrará os pontos de contato entre as literaturas latino-americanas e as vindas do continente negro (que na literatura nem é tão negro assim). O encontro,
que em sua quarta edição começa a se consolidar como um espaço de referência para a reflexão acadêmica em teoria literária no país, levou o Idéias a aproveitar para perguntar: como mostrar as
peculiaridades das literaturas de cada país africano sem incorrer no risco da farinha do mesmo saco, o clichê da “literatura africana”?

– Esse é um esterótipo oriundo da ignorância – diz a pesquisadora Lucila Nogueira, professora da UFPE e curadora literária da Fliporto. – É primordial pensar não na África, mas em Áfricas, em literaturas africanas, justamente a preocupação que tivemos na curadoria.

– É um fenômeno que ocorre muito mais no Brasil, que desconhece suas origens e é um país muito grande, que acha que se basta a si próprio – diz José Eduardo Agualusa, de Angola, conhecido dos brasileirossobretudo por O ano em que Zumbi tomou o Rio.


Unidades diaspóricas

Agualusa falará na Fliporto em 7 de novembro, na mesa sobre o acordo ortográfico entre os países de língua portuguesa, e, no mesmo dia, conversa com os conterrâneos Pepetela e Ondjaki em uma mesa sobre a literatura de seu país, ligação que ele nem acha tão relevante assim, deslocando o debate para um extremo ainda mais distante:

– Um autor não quer ser reconhecido como continental ou nacional, mas como escritor.

Outro que participa da Festa, Luis Carlos Patraquim, de Moçambique, menos conhecido por aqui, é um dos poetas mais celebrados em seu país (autor de obras elogiadas como O osso côncavo). Ele também critica (por e-mail) a unificação, em bom português lusitano (pré-acordo):

– Falar assim de África, genericamente e sem referir países e suas especificidades, decorre ainda de uma inconsciente idéia de império ou de aquilo a que alguém chamou de “desejos coloniais”. Mas a própria “África” = países africanos por vezes também não ajuda. Falar da floresta sem ver as árvores é incorrecto.

Fora da Festa, mas um dos mais importantes observadores brasileiros das africanidades, Nei Lopes defende o outro lado: para ele, embora seja preciso ver os países africanos em sua unidade, é importante ver a África em pelo menos um sentido unificado: a partir de uma leitura de sua diáspora:

–Todos os pontos de contato são motivados por uma origem comum. Que começa nos primórdios da Humanidade e atravessa a alta Antiguidade, com migrações seculares, até quase os nossos dias. E também pela tragédia do escravismo que, de certa forma, uniu a todos na desgraça e que, ainda por cima, culminou na exploração colonial mais aviltante, através da utilização de métodos bem semelhantes, tanto da parte de franceses quanto de ingleses, belgas ou portugueses. A idéia de uma integração entre a África e sua diáspora, uma colaboração efetiva em nome de uma origem comum, uma reverência de herdeiros diante de um respeitável e portentoso legado ancestral é, no meu entender, altamente pertinente – teoriza Lopes.

Diáspora também é a palavra-chave de Lucila Nogueira, que informa que o guia conceitual para o encontro foi o modelo de pensamento do filósofo jamaicano radicado no Reino Unido Stuart Hall, autor da pesquisa Da diáspora: identidades e mediações culturais , na qual discute as mestiçagens culturais no mundo contemporâneo e estabelece pontos de contato entre as culturas.

– A diáspora negra é vista hoje da mesma maneira que a judaica, como a dispersão de um povo pelo mundo. O Brasil não pode olhar para nada de maneira unificada, porque, afinal, não somos nada unificados também. É impossível falar de literatura brasileira, mas também de múltiplas literaturas.

Pois bem, o Brasil tem mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e mais de 180 milhões de habitantes. Guiné-Bissau se espreme em 36,5 mil quilômetros quadrados e tem pouco mais de 1,4 milhão de habitantes. Mesmo assim, a multiplicidade é a mesma tônica nacional: se aqui há uma região Nordeste profundamente diferente da região Sul, igualmente lá há dezenas de etnias que tornam o país uma colcha de retalhos cultural. O poeta Antônio Soares Lopes, o Tony Tcheka, “representa”, por assim, dizer, Guiné-Bissau, na Fliporto – onde, aliás, como vários dos colegas africanos (usemos o termo com cuidado) lançará obras, em escala lusófona. Seu país tem influência islâmica e nele o português oficial não é nem de longe o idioma mais falado. O crioulo é presente e quase sempre hegemônico na fala (e muitas vezes escrita). Tcheka diz, por telefone, de Portugal, onde é radicado, que sua relação com esse traço já aponta uma peculiaridade gritante da literatura de seu país:

– Se me perguntam quando escrevo em português e quando em crioulo, digo que sinceramente não sei. Às vezes uso os dois no mesmo poema, indistintamente.

Ele sugere uma outra relação com a idéia de unidade, defendendo encontros como a Fliporto como momentos mais úteis para mostrar a diferença do que para consolidar semelhanças entre escritores africanos, sejam eles de quaisquer origens e línguas:

– As literaturas por si próprias já demonstram essa diferença. Colocadas uma ao lado das outras, fica
explícito o contraste. Mas não um contraste de separação, de isolamento, mas uma diferenciação que oferece vários universos diferentes

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