Pedro Rosa Mendes – Baía dos Tigres

Um post para desengavetar um velho texto.

Os cegos: vêem algo?
— Uma cara de mulher, lisa à perspectiva das mãos.
— O cheiro molhado da chuva que se aprendeu de ouvido.
— Lembro muito um carro azul, não era meu, uma bicicleta que era, uma casa.
— O caminho para casa.
— Tinha um rádio de plástico e um pente vermelho.
— O mato calmo e de repente o fogo a saltar-me dos pés. O incêndio da bomba correndo em mim, sim.
— Estou mesmo numa vida escura. Desculpe, mas nada.
— A paz é a nossa recompensa.
O perdão, o prêmio do líder que os mandou combater.
— Deixei de o ver quando perdi os olhos. Agora acompanho-lhe a voz. Não consigo fazer uma frase da cara dele, mas uma palavra sim: forte, alto. Não é?

O dia é 22 de setembro de 2008. Acabo de chegar em casa e vejo que os Correios me entregaram o Baía dos Tigres, livro do português Pedro Rosa Mendes que há muito queria ler. Quando comecei, entendi rapidamente que o desejo não era gratuito. Livro digestivo, apesar das mais de 400 páginas, desses que a gente devora numa sentada. Quisera eu escrever algumas notas já assim, minutos depois de o ter em mãos, mas minha sentada durou até a página 57. Um pedaço da página, embaixo, estava arrancado, de tal forma que o conteúdo ali estava perdido. Liguei para o sebo e eles me devolveram o dinheiro no outro dia, deixando-me ficar com o livro. Segui a leitura. Valeu a pena. O escritor angolano José Eduardo Agualusa, com palavras melhores que as minhas, fez o trabalho de nos apresentar a obra:

Em 1977, Pedro Rosa Mendes propôs-se realizar uma viagem impossível: a travessia do continente africano, por terra, “De Angola à Contracosta”. Tratava-se pois de cumprir o famosíssimo trajecto de Capello e Ivens, um século depois, muitas guerras depois, através de estradas já mortas e campos semeados de minas. Este livro não se resume ao relato dessa aventura. Ele constrói-se a partir das histórias, narradas na primeira pessoa, dos extraordinários personagens que Pedro Rosa Mendes descobriu. Heróis anónimos, habitantes dos limites da vida, a também monstros, estranhos monstros, reiventando o horror no seu vasto território de sombras. Portugal precisava de um livro como este. Um livro capaz de justificar todo um passado comum de errância pelo mundo e de renovar a chamada literatura de viagens. Neste caso, grande literatura.

A jornada que empreendemos com a Baía de Rosa Mendes vale mesmo a pequena frustração de perder um pedaço de página, de texto, da própria viagem, como se cochilássemos naquele trajeto do qual, como tantos outros da estrada toda, nos diriam: lindo, perdeste.

Foi no dia 22 de setembro de 2008.

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