Sarah Mkhonza: Suazilândia, mulheres e exílio

Hoje, 6 de setembro, a Suazilândia comemora sua independência. Entretanto, assim como tantos outros países africanos, esse pequeno país montanhoso vizinho de Moçambique e da África do Sul ainda tem muito a não comemorar: com a maior taxa de contaminação por HIV do mundo (um terço da população adulta), é governado por um regime monárquico, um dos últimos ainda vigentes no continente, bem conhecido por não tolerar vozes dissonantes.
Falaremos sobre um caso particular: o da escritora, sociolinguista e professora suazi Sarah Mkhonza, que em 2003 teve que deixar sua terra devido a perseguições políticas contra ela e sua família. Uma das mais proeminentes escritoras do país em questão, colaboradora de importantes periódicos nacionais, empregava um estilo que misturava ficção e escrita jornalística, cujo objetivo era estimular uma cultura escrita entre as mulheres. Devido aos temas abordados – violência e injustiças sociais contra mulheres -, a co-fundadora da Association of African Women (Associação de Mulheres Africanas), foi “convidada” a parar de escrever. Recusou-se e sofreu todo tipo de agressão, primeiro psicológica, depois física, o que a obrigou a pedir asilo em Ithaca (Nova Iorque, EUA), onde vive até hoje.
Seu trabalho literário compreende dois romances, What the Future Holds (O que o futuro nos reserva) e Pains of a Maid (Dores de uma doméstica), além de dois livretos, Two Stories (Duas histórias; contos) e Woman in a Tree (Mulher na árvore; poesia). Sua obra ainda não tem tradução para o Português.
Aqui traduzo livremente um pequeno conto e uma poesia; aquele retirado de Duas Histórias, esta, de Mulher na árvore.

Excerto de Two Stories

“Foi nas primeiras horas da manhã, e ela podia ver a luz através das rachaduras nas paredes da cabana. Olhou para o lugar onde a palha encontra a parede e teve certeza de que amanhecia. Makatikoti estava estendida na esteira, esperando que ainda estivesse sonhando. Não podia acreditar. Manandi não tinha voltado para casa. Ela se perguntou o que haveria acontecido com ele…

original em Inglês:

It was in the small hours of the morning, and she could see the light through the cracks in the walls of the hut. She looked at the place where the thatch met the wall and confirmed that it was surely daybreak. Makatikoti stretched out on the mat, still hoping that she was dreaming. She could not believe it. Manandi had not come home. She wondered what had happened to him…

Emergência dominical, do livro Woman in a Tree.

Num sangrento domingo
na emergência de um hospital
numa cidade chamada Manzini
de um país chamado Suazilândia
o fim de semana joga futebol
sobre corpos de mulheres.
O sofrimento me mata por dentro.
Vistas por toda parte, me invadem
mulheres mancando, quadris deslocados,
cabeças enfaixadas,
minha sobrinha, sem olho, mas com uma bola de gude na meia,
Minha sobrinha morta, não mais que uma memória.
Quando isso termina, esse espancamento de mulheres?
Responda-me! Minha ansiedade me derruba,
Porque sou lunar, vou enlouquecer
e fugir no meio da noite, chorando todo assassinato.
Alguém está louco e não sou eu;
Alguém dentro de mim vê.
Acabei de falar por todas,
eu falo.

The Sunday Emergency

On a bloody Sunday journey
At the emergency room of a hospital
In a town called Manzini
In a country called Swaziland
The weekend plays soccer
On the bodies of women.
The suffering kills me inside.
Seen everywhere, it invades me —
Women limping, hips dislocated,
Heads bandaged,
My niece with no eye, but a marble in the socket,
My niece dead, nothing but a memory.
When does it end, this beating of women?
Answer me! My anxiety fails me,
For I am lunar, I will go mad
And run away in the night, crying murder all over.
Somebody is mad and not me;
Somebody inside me sees.
I just speak for all,
I do.

O canal do Youtube da Cornell University disponibiliza algumas conferências e palestras do Programa de Asilo de Ithaca; no vídeo abaixo, Sarah fala (em Inglês) sobre sua obra e suas experiências:

Aproveitemos, portanto, esta véspera de nossa própria independência para olhar as “independências” alheias e aprender com elas.
Até a próxima.

2 comentários

  1. Ola, parabens pelas traduções. Você traduziu o conto inteiro ou so essa parte publicada? Estou interessada na continuação. Abraços, Raya

    • Traduzi-o quase todo, mas acabei deixando na gaveta por conta da loucura toda de final de ano [vida de professor é sempre assim]. Vou tentar dar um gás nisso neste mês para submetê-la à revista n.t. [http://www.notadotradutor.com/], mas antes disso eu envio pra ti, Raya.
      Abraço e obrigado pela visita e pelo feedback.

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