Ondjaki em Floripa

Como já vos havia alertado, o escritor angolano Ondjaki esteve hoje pela tarde aqui no Centro de Comunicação e Expressão da UFSC para, primeiro, exibir seu “Oxalá cresçam pitangas“, co-dirigido por Kiluanje Liberdade. Trata-se de uma visão ao mesmo tempo global e particular da vida em Luanda, capital angolana. Particular, porque limitada a umas poucas personagens (numa cidade com mais de 5 milhões de habitantes, 10 ou 12 pessoas é lá uma visão bem específica). Global, porque em cada uma dessas poucas histórias entrevemos ao menos um ponto de contato que parece, afinal, compartilhado por todos os luandenses: a certeza de que há um futuro, e que esse futuro há de sanar as chagas abertas pela guerra civil que há tão poucos anos (sete, pra ser mais exato) terminou, mas que tão viva ainda está em suas memórias. Um filme que mistura a crueza do cotidiano duro de Luanda, a beleza de sua gente e o humor único (ora involuntário, ora fruto de nosso próprio olhar “estrangeiro”) das personagens urbanas da mais cosmopolita das cidades angolanas. O segundo motivo, este talvez não programado por ele, foi arrancar alguns suspiros das ondjaketes sempre presentes… oxalá rendam tangas.

Após o evento, quase segui a professora Simone Schmidt, minha orientadora e uma das conferencistas do evento, à Barca dos Livros, na Lagoa da Conceição, onde Ondjaki faria o lançamento de “Avó Dezanove e o Segredo do Soviético“, seu último romance, além de “O Leão e o Coelho Saltitão“, livro infantil escrito a partir de um conto tradicional angolano.

Como se pode ver, deixei de estar lá e aqui acabo, na nascente da madrugada, a escrever sobre isso. Pois me vou à cama que já são horas e amanhã, com ou sem a chuvinha chata que pretende abençoar nossa semana toda, teremos mais Áfricas a discutir. Prometo uns vídeos que fiz hoje também.

Ondjaki_-_Brincher_(CCE-UFSC)

Ondjaki e Brincher (CCE-UFSC; 18-ago-2009)

Editorial Caminho publica novo livro de Mia Couto

Fonte: Diário Digital (Portugal)

«e se Obama fosse africano? E outras interinvenções» é o novo livro de Mia Couto, que regressa com um conjunto de textos de intervenção proferidos em encontros públicos nos últimos anos.
Depois de «Pensatempos», Mia Couto regressa com mais um livro onde os leitores podem estar mais próximos das ideias do escritor moçambicano.
Em «e se Obama fosse africano? E outras interinvenções» podemos encontrar uma série de textos de reflexão sobre vários temas, que vão da política à literatura, da cultura à antropologia.
O livro estará disponível nas livrarias portuguesas no próximo dia 24 de Março. Aqui no Brasil, ao que parece, ainda nem sinal desse lançamento.

– Pareceu-me extremamente corajoso usar como título do livro o mesmo artigo que já foi objeto de uma consistente contra-argumentação há poucos meses. Valoremos a coragem, então.

Mia Couto ”E se obama fosse africano?”

[ Leia neste link a bombástica resposta de Heloisa Pires Lima ao texto abaixo, publicada em 27/jan/2009 ]

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anônimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de “nosso irmão”. E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: ” E se Obama fosse camaronês?”. As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente “descobriram” que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado ‘ilegalmente”. Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um “não autêntico africano”. O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos “outros”, dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso “irmão” teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada “pureza africana”. Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder – a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado – a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos – as pessoas simples e os trabalhadores anónimos – festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

Fonte: Casa das Áfricas, 10/nov/08

Sandro Brincher "Uma perna, uma coroa"

Angola é terra de superação. Acabo de ver, e reproduzir aqui, a notícia de que as eleições parlamentares deste ano transcorreram dentro da normalidade, sem qualquer incidente violento; fato impressionante para um país que saiu de uma terrível guerra civil há meia dúzia de anos. Outro fato impressionante sobre Angola é que, segundo estimativas do INAROEE (Instituto Nacional de Remoção de Objectos e Engenhos Explosivos), existem entre 5 e 7 milhões de minas terrestres e engenhos não detonados em Angola, praticamente uma mina para cada dois habitantes. Há entretanto, aqueles que já receberam seu doloroso quinhão.

O artista norueguês Morten Traavik visitou durante meses dezenas de centros de reabilitação de sobreviventes de minas terrestres em toda Angola em busca de beleza. Exato, beleza. Sua idéia era reunir candidatas para o concurso Miss Landmine, idealizado por ele, que premiaria a vencedora com uma prótese. Não é necessário dizer que sua iniciativa foi repudiada por muita gente, sobretudo pelos que jamais moveram uma palha em relação ao assunto, mas que estão sempre prontos a atacar atitudes alheias.
À parte a discussão ética, o aspecto artístico do concurso deveria ter despertado mais que repulsa. Afinal, estamos falando de um concurso de beleza onde os moldes são absolutamente marginais: mulheres, negras, africanas, de cujos corpos falta um membro que é justo o que lhes permite andar normalmente. Vítimas da discriminação mesmo entre os seus.
É preciso dizer, também, que não fosse o concurso, algumas dessas mulheres jamais alçariam suas vozes, jamais teriam toda essa atenção voltada a elas e, afinal, ao problema primordial: a covardia das minas e os efeitos que trouxeram a milhares de pessoas em um país que está cansado de chorar suas perdas.

Assista a um pequeno documentário sobre o Miss Landmine: http://www.miss-landmine.org/film.html

Mia Couto "Um outro Pai Natal"

Revista África 21 ||| Ano I – Edição de Agosto

“Muitos compatriotas meus acreditam genuinamente que, neste extenso e bravio mundo, todos os brancos são ricos e estão dispensados do trabalho árduo”, escreve Mia Couto.

O homem usa vestes tradicionais de tons azuis e vermelhos e fala numa língua que não sou capaz de identificar. Peço que me traduzam, ninguém o sabe fazer. Estamos na cerimónia de abertura da Conferência Internacional de Escritores e Tradutores, realizada no mês passado em Estocolmo. Mais de mil participantes, vindos de todo o Mundo, têm os olhos postos no homem de trajes garridos que domina o espaçoso palco.

Depois de uma breve anunciação, o homem pede a dois músicos que o acompanhem numa canção melancólica. O tom arrastado, para meus ignorantes ouvidos, faz lembrar as ladainhas monórdicas dos índios americanos.

A meu lado, surge um primeiro esclarecimento quando alguém me sussurra:
– São lapões, estão a falar sami.

O homem no palco é um escritor e cantor lapão que, num discurso breve mas incisivo, lamenta o facto da sua língua apenas há meia dúzia de anos ser reconhecida na Suécia. Demorou séculos. Todos conhecem os lapões sem realmente saberem quase nada sobre eles. A figura do Pai Natal passeando por territórios de neve numa carroça puxada por renas é uma caricatura que os lapões, sem querer, exportaram para o mundo inteiro, mas foi-lhe surripiada a patente da imagem.

Jacob Zuma confessou-se «surpreendido e chocado» por, esta semana, ter visitado uma região habitada por comunidades de brancos pobres em Joanesburgo. O dirigente do ANC desconhecia que entre os brancos sul-africanos pudesse existir tanta miséria.

Muitos compatriotas meus acreditam genuinamente que, neste extenso e bravio mundo, todos os brancos são ricos e estão dispensados do trabalho árduo. A divisão de riqueza coincide com fronteiras raciais por estranho mandato divino ou por condenação biológica.

Não me esqueço de um documentário cinematográfico dado a ver, logo após a independência, a uma audiência de operários em Maputo. De repente, sem que eu entendesse a razão, a sala inteira ria-se a bandeiras despregadas. O filme mostrava camponeses do Norte de Portugal entoando canções enquanto lavravam a terra. Não havia motivo aparente para aquele estado hilariante. Depois, me explicaram: nunca aqueles operários tinham visto brancos trabalhando na agricultura. E pensavam que aquela gente os estava imitando a eles que, apesar de urbanos, ainda se mantinham ligados aos trabalhos agrícolas.

Pois eu, nessa cerimónia em Estocolmo recebi mais surpresas que Jacob Zuma e mais ainda que os espectadores de Maputo. Na verdade, eu conhecia os lapões e sabia um pouco da sua história. Mas fascinava-me a ideia que aquela língua teve, no contexto da Europa desenvolvida, que empreender a mesma luta anti-hegemónica que as línguas africanas. Decidi, pois, falar com o escritor. E aí, na realidade, me esperava a verdadeira surpresa. Ao me saber africano de origem portuguesa, o lapão me estendeu a mão e me disse:
– Somos parentes, meu irmão.

Acreditei, primeiro, que me atribuía, gentilmente, o parentesco da amizade que é, afinal, mais fundo que os laços de sangue. Mas, não. O homem me considerava próximo do ponto de vista genético. Os lapões, explicou ele, possuem 96 por cento do seu ADN originário da Península Ibérica e do Norte de África.

Regressei ao hotel pensando numa conversa que acabara de manter com os meus colegas africanos. Para nós, o assunto das línguas era simples: os europeus impuseram as suas aos outros. Mas estávamos longe de pensar que esses «outros» pudessem ser também europeus. E a ironia talvez pudesse ser ainda mais ousada: os verdadeiros originários da Europa Ocidental estavam brigando, ao lado dos africanos, pela dignificação das suas culturas e línguas.

De regresso a Moçambique me lembrei de como sempre estranhei a figura deslocada do Pai Natal, esse velho branco de barbas brancas tremendo de frio em pleno Dezembro que é o mês mais quente da minha cidadezinha tropical. Me irritavam as renas pelo facto de pouco se parecerem com os inhacosos e impalas da minha terra. Mas, agora, quem sabe eu sacuda, com a mesma simpatia, a mão do solitário e lapão das barbas quando ele se anunciar, no meu quintal, em plena época natalícia?

Nota: “Pai Natal” é como os portugueses e os africanos de língua portuguesa chamam o Papai Noel.