Michel Leiris – A África fantasma [excerto]

Uma daquelas leituras que valem cada uma das 688 páginas. Lançado no Brasil pela Cosac Naify em 2007 com Tradução de André Pinto Pacheco e introdução de Fernanda Arêas Peixoto.

10 DE MARÇO

Forte tornado durante todo o fim da noite. Torrentes de água, que pela manhã tornam-se escarros. Eu me acostumo à vila, encontro até algum atrativo em arrumar um armário embutido, que me permite não deixar nada largado. Sempre amei a ordem. Esta, de resto, é uma daz razões por que me agrada o que se convencionou chamar “selvageria”. Penso nas panóplias tão corretas dos Somba; nos belos celeiros dos Kirdi de Mora, rodeados por uma cerca; nas cabanas tão lustrosas dos Mundang. Admirável nitidez das pessoas nuas. Absoluta correção de porte, perto do qual tudo que está vestido parece troca-tintas ou vagabundo. Que bagunça horrível, nossas civilizações.

“Híbrido de etnografia e literatura, A África fantasma ficou mesmo conhecido por seu tom marcadamente confessional. Entre 1931 e 1933, ao exercer a função de “secretário-arquivista” da Missão Etnográfica e Linguística de Dacar a Djibuti que atravessou a África do Atlântico ao Mar Vermelho, Michel Leiris [1901-1990] registrou diariamente o cotidiano de uma equipe interdisciplinar liderada pelo antropólogo Marcel Griaule. Entraves diplomáticos, rituais funerários, furtos de objetos sagrados, sacrifícios, sonhos, erotismo e até o esboço de uma ficção fazem parte deste livro monumental, ponto de inflexão na obra de Leiris rumo a uma prosa autobiográfica”. [da contracapa do livro]

moradia dos Somba

”O último voo do flamingo” vai para as telas

Seguindo a trilha de sucesso da adaptação do romance Terra Sonâmbula, que percorreu os cinemas da Europa e de vários recantos dos Estados Unidos, O último voo do flamingo, do escritor moçambicano Mia Couto, vai ganhar versão cinematográfica. As filmagens serão feitas na cidade moçambicana de Marracuene e começam a 18 de março deste ano. Portugal, Brasil, Moçambique e Angola serão os países de onde virão os atores desta (desde já) tão esperada adaptação, cuja base de produção é encabeçada por Espanha, Brasil, Moçambique, Itália e França.

Apesar de acreditar que “a linguagem de Mia Couto é muito particular, muito poética, muito rica, e, portanto, há esse lado, que não é transponível para o cinema”, Gonçalo Galvão Teles, responsável pela Fado Filmes, a produtora por trás dessa adaptação, e sua equipe não parecem hesitantes quanto à execução da tarefa, já que a previsão é de que o filme esteja pronto ainda este ano. Um estreante no formato longa-metragem, o moçambicano João Ribeiro, ficará a cargo da realização. Apesar de estrear na direção de um longa, ele foi produtor de A Costa dos Murmúrios (2004), adaptação do livro homônimo da portuguesa Lídia Jorge, sendo também diretor de Tatana (2005), curta baseado em “Saíde, o Lata de Água“, conto presente no livro Vozes anoitecidas, de Mia Couto, cujo roteiro João Ribeiro escreveu em parceria com o referido autor. Como se vê, o diretor tem em seu currículo itens suficientes para que o consideremos habilitado à empreitada, ao menos sabendo-o tão íntimo de adaptações de histórias de ou sobre a África de língua portuguesa. Esperemos, então, que sua já comprovada competência como roteirista e produtor se converta em, pelo menos, um belo filme.