José Craveirinha – Um homem não chora

Um homem não chora
Acreditava naquela historia
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!

II Gala Porto’s Africa

A brasileira Cristina Bernardini, neta de um cabo-verdiano e proprietária da produtora “Ritmos e Temas”, organizou com sua empresa a segunda edição da Gala Porto’s Africa (nota: “gala” em português europeu tem também o sentido de “solenidade”, “festa solene”, pouco comum por aqui), evento que premiou os melhores do ano de 2008 nas categorias Comunicação Social, Música, Literatura, Artes, Esportes e Moda, além de uma premiação institucional. Mia Couto e José Eduardo Agualusa foram os premiados na categoria Literatura. José Craveirinha foi agraciado na categoria Artes.
10 % cento da renda do jantar do evento foi para a Médicos do Mundo, entidade que desenvolve projetos humanitários em Moçambique, Guiné, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Angola.

José Craveirinha "Grito negro"

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José Craveirinha (1922-2003); Moçambique.
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Grito negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.