João Paulo Borges Coelho leva o Prêmio Leya

O historiador moçambicano de 54 anos leva o prêmio – e a “simbólica” soma de 100 mil euros) com seu romance “O olho de Hertzog“. O júri foi presidido por Manuel Alegre e contou ainda com Carlos Heitor Cony, José Carlos Seabra Pereira, Rita Chaves e Pepetela (Nuno Júdice e Lourenço Rosário, também escalados, não compareceram ao evento por razões de saúde). Sua obra romanesca compreende seis livros, todos publicados pela Editorial Caminho:

  • As Duas Sombras do Rio, 2003
  • As Visitas do Dr. Valdez, 2004
  • Índicos Indícios I. Setentrião, 2005
  • Índicos Indícios II. Meridião, 2005
  • Crónica da Rua 513.2, 2006
  • Campo de Trânsito, 2007
  • Hinyambaan, 2008

Além disso, João Paulo Borges Coelho publicou também duas histórias em quadrinhos, Akapwitchi Akaporo: Armas e Escravos e No Tempo do Farelahi (assinando apenas João Paulo).

Romance de Agualusa fora de mais uma final

Pois aqueles que apostavam no angolano José Eduardo Agualusa para levar mais uma vez o Prêmio Independente de Ficção Estrangeira 2009, patrocinado pelo Conselho de Artes Britânico, erraram.
Agualusa, que já havia sido agraciado com tal honraria em 2007 com a tradução de “O vendedor de passados” (The Book of Chameleons, na tradução de Daniel Hahn), não teve seu romance “As mulheres do meu pai“entre as seis obras finalistas do prêmio, que distingue a melhor tradução para língua inglesa e galardoa ambos, o tradutor e o escritor, com 10 mil libras (perto de 11 mil e poucos euros).

Eis os finalistas:

  • Voiceover“, da francesa Céline Curiol
  • Beijing Coma“, da chinesa exilada Ma Jian
  • The Siege“, do também exilado albanês Ismail Kadaré¹
  • The Armies“, do colombiano Evelio Rosero
  • The Informers“, do também colombiano Juan Gabriel Vasquez
  • Friendly Fire“, do israelense A. B. Yehoshua.

¹ O mesmo de Abril Despedaçado, que recebeu uma belíssima adaptação cinematográfica aqui no Brasil em 2001, dirigida por Walter Salles.

Lídia Jorge premiada na França

Lídia Jorge recebe prémio em França
Fonte: Observatório do Algarve

Lídia Jorge
 

O romance “Combateremos a Sombra”, de Lídia Jorge, editado em 2007 pelas Publicações Dom Quixote, foi distinguido com o Prêmio Charles Bisset 2008, atribuído pela Associação Francesa de Psiquiatria. Lídia Jorge é a primeira autora portuguesa a receber este prêmio.

II Gala Porto’s Africa

A brasileira Cristina Bernardini, neta de um cabo-verdiano e proprietária da produtora “Ritmos e Temas”, organizou com sua empresa a segunda edição da Gala Porto’s Africa (nota: “gala” em português europeu tem também o sentido de “solenidade”, “festa solene”, pouco comum por aqui), evento que premiou os melhores do ano de 2008 nas categorias Comunicação Social, Música, Literatura, Artes, Esportes e Moda, além de uma premiação institucional. Mia Couto e José Eduardo Agualusa foram os premiados na categoria Literatura. José Craveirinha foi agraciado na categoria Artes.
10 % cento da renda do jantar do evento foi para a Médicos do Mundo, entidade que desenvolve projetos humanitários em Moçambique, Guiné, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Angola.

Jornal de Letras, Artes e Ideias: milésima edição!

Sai na quarta-feira, dia 28, a milésima edição do Jornal de Letras, Artes e Ideias publicação quinzenal que desde 1978 enriquece o jornalismo cultural português. Dirigido por José Carlos Vasconcelos, o periódico vai oferecer junto com essa especialíssima edição uma antologia de poesia lusófona contemporânea, intitulada LeYa Poemas, garimpada entre a obra de autores(as) vivos(as). Entre eles, quatro representantes africanos: Mia Couto e Guita Jr (Moçambique), Ondjaki e Paula Tavares (Angola).
A holding LeYa é quem organiza o material. Aqui no Brasil é mais conhecida pelas editoras que a compõem (veja lista abaixo). Pese sua mui recente fundação (7 de janeiro de 2008; meu aniversário, por sinal), já chegou com uma auto-afirmada meta de ser o maior grupo editorial dedicado à língua portuguesa. Para tal, instituiu o Prémio Leya de Romance, que oferece a mixaria de 100 mil euros ao vencedor. Se ainda não é o maior grupo (não o sei), ao menos esse é de longe o maior prêmio literário de nossa(s) língua(s) portuguesa(s).
  • Academia do Livro
  • Asa
  • Caderno
  • Caminho
  • Casa das Letras
  • Dom Quixote
  • Estrela Polar
  • Gailivro
  • Livros d’Hoje
  • Lua de Papel
  • Ndjira (Moçambique)
  • Nova Gaia
  • Nzila (Angola)
  • Oceanos
  • Oficina do Livro
  • Quinta Essência
  • Sebenta
  • Teorema
  • Texto

Ondjaki, Carmen Tindó e a "lusofonia"

O “menino-prodígio” Ondjaki já tem mais uma pro currículo: é o único autor africano entre os dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa deste ano (já falei disso em outro texto).
No Rio de Janeiro, onde vai passar um ano, disse à Agência Lusa, entre outras coisas, que acredita já existir um intenso diálogo cultural entre o Brasil e os países africanos de Língua (oficial) Portuguesa. Apesar disso, admite não ser um diálogo tão equilibrado:

“O Brasil é um país exportador de cultura. Nos anos 70 houve uma grande influência da literatura brasileira na que estava a ser feita, sobretudo, em Angola e Moçambique. O inverso é mais difícil, ainda não há uma dimensão cultural que justifique Angola influenciar o Brasil”.

Neste sentido, destacou a importância da atividade docente nesse intercâmbio:

É preciso não esquecer o trabalho de professores de literatura africana desde meados dos anos 90, muito antes da movimentação política, já havia um espaço de abertura e que agora está a ser de facto reconhecido“, uma atitude política que, para ele, é o “culminar de um grande acumular de esforços de entidades e instituições“.

Interessante notar que, mesmo que os periódicos portugueses utilizem o termo lusofonia, Ondjaki não o utiliza. Quem assistiu à palestra que ele proferiu aqui em Florianópolis em 2006 (se não me falha a memória), pode ouvi-lo dizer que não o agrada o termo.
De modo semelhante, a pesquisadora de literaturas africanas Carmen Lúcia Tindó, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também questiona o uso de tal vocábulo, alegando que cada país tem uma cultura própria da língua portuguesa.

“Em relação à África não há apenas uma lusofonia. A língua portuguesa é um dos idiomas, mas há também as línguas africanas”, disse ela à Agência Lusa.

Particularmente, respeito a opinião de ambos e a vejo perfeitamente justificável. No entanto, prefiro pensar que há algo nisso tudo como “procurar chifre em cabeça de cavalo”. O termo lusofonia deveria sevir única e exclusivamente para referenciar um conjunto de países onde se fala Português. Até aí, tudo certo, não há nada de aterrador nem de culturalmente cerceador nesse termo. O problema consiste no fato de que, sobretudo por conta de pensadores, jornalistas e estadistas portugueses ainda órfãos do antigo Império, a lusofonia parece ainda querer abarcar uma noção de cultura transcontinental, e aí sim, ambos, Ondjaki e Carmen Tindó, estão acertadíssimos em seus raciocínios.

Leia o texto completo sobre o trabalho da profª Carmen aqui, e o do Ondjaki aqui.